Thursday, June 14, 2007

Joaquim, Hermann e Horácio

Estava colocando a roupa suja e coberta de graxa no armário. Trocava sempre suas roupas depois do trabalho. Uma vez acabou esquecendo de levar a troca e foi embora com uma jaqueta, para não mostrar a sujeira da roupa. Tinha orgulho de trabalhar, mas tinha vergonha da sujeira residual. Mas, ao mesmo tempo em que a sujeira o incomodava, o asco pelos escritórios, seus ternos e ares condicionados era ainda maior. Era um bando de gente metida que às vezes tinha um salário tão medíocre ou até pior do que muito peão por aí, mas que acabava nos olhando do alto.

Foi por causa de gente assim que Joaquim saiu do trabalho puto aquele dia. Inventou de andar sorrindo pelos corredores da fábrica cumprimentando todo mundo que via pela frente: "Oba vai!", "Belezinha?", "Tranquilão?". Até que ele inventou de cruzar Flávia, a magnífica, ou "aquela potranca", para alguns que preferiam ser mais diretos. Flávia era secretária de um gerente de alguma coisa, beneficiada desde cedo pela beleza descomunal e pelo bom gosto ao escolher as roupas do trabalho. Pelo pouco contato que tinham não se sabe ao certo se era esperta; inteligente até era, mas a esperteza ficava em um patamar bem diferente. O fato é que Joaquim em seu delírio momentâneo de felicidade achou que poderia cumprimentá-la. O insucesso da empreitada se deu porque ela nem reparara em sua existência. Joaquim um pouco acanhado pela magnificência da dama disse um "olá" fraco e débil, e por ela ser muito forte e concisa não houve resposta. "Vaca" - pensou ele - "aposto que me acha um analfabeto contagioso". A palavra "vaca" saiu-lhe pela boca muitas vezes no decorrer da jornada de oito horas.

Depois de um dia todo puto com aquela bobagem, Joaquim foi ao "muquifo do Hermann", como gostava de falar. Todas as quintas-feiras ele ia ao supermercado, comprava uma caixinha de cerveja puro malte, aquelas mais fortes e requintadas, e se dirigia ao apartamento do amigo. Seriam mesmo amigos? Com certeza sim, dado que aquele estranho relacionamento não aconteceria entre simples estranhos.

Hermann. Joaquim estudou com ele durante algum tempo. Enquanto Joaquim descobria maravilhas comuns da juventude, como as coisas que você se sente incomodado de fazer, mas faz porque todos já haviam feito, Hermann descobria outras. Joaquim contava a Hermann suas coisas e este, por sua vez, confiando demais no julgamento ruim que Joaquim dava, não as fazia. O contrário não acontecia, Hermann não contava muita coisa a Joaquim. Falava de umas músicas, uns filmes, umas garotas. Acabava falando tão bem de tão poucas coisas que Joaquim já se sentia satisfeito e a amizade perdurava.
Até hoje Hermann esmiúça ao falar de suas coisas, mas essas coisas diminuíram muito ultimamente. Joaquim já não tem tantas experiências novas assim para contar; ocorriam umas variações ou outras, mas nada digno de uma interrupção da cerveja.

Por isso a maior parte do tempo no muquifo de Hermann era ocupada por um silêncio inviolável. Os sons mais comuns no ambiente eram os barulhos de satisfação pela temperatura agradável da cerveja puro malte produzidos pela boca de Joaquim e os encontros entre gelos que se davam no copo de uísque de Hermann.

Joaquim ficava sentado torto em uma cadeira dura na sala, de modo que apenas as primeiras vértebras de sua coluna ficassem no encosto. Lia todo o rótulo da primeira cerveja e com as seguintes apenas observava o ambiente. Hermann sentava na única mobília destinada ao conforto em seu apartamento, a poltrona. E lá ficava, com as pernas cruzadas, balançando o copo de uísque e observando fixamente as pedras de gelo se batendo.

Depois da primeira lata de cerveja chegava Horácio com toda a sua esquisitice e seu sorriso simpático. Entrava, cumprimentava com um "boa noite" amigável e se dirigia à cozinha para fazer o suco.

Horácio. Joaquim e Hermann estudaram com ele algum tempo também. Era uma espécie de semi-deus bucólico que foi jogado por engano na cidade grande e por isso sofre. As pessoas o acham estranho, mas Hermann e Joaquim sabiam como era. Não que fossem estranhos os dois, Hermann talvez um pouco, mas ambos gostavam de gente esquisita ao redor.

Nos tempos de escola, Horácio filosofava e recitava poesia; isso acabou os unindo. Quem na verdade gostava muito de conversar com Horácio era Joaquim, Hermann apenas discordava. Quando Joaquim chamou Horácio pela primeira vez ao apartamento de Hermann, o dono do evento ficou tão puto que disse: "Da próxima vez que inventar alguma merda aqui, me avisa.". Desde então, Joaquim só sorria nos encontros. O mau humor de Hermann aliado à simpatia incomum de Horácio eram muito agradáveis para ele.

Talvez Horácio gostasse de provocar. Era o que preferíamos pensar no lugar da possível pureza melancólica que poderia estar invadindo seu coração. Ele levava frutas ao apartamento e fazia um suco, sentava em uma outra cadeira, mas com a coluna retinha e ficava bebendo e sorrindo. Hermann um dia lhe disse que para continuar ali, ele só poderia levar coisas insalubres para beber. Na outra quinta, Horácio levou um pacotinho de suco em pó. Joaquim gargalhava com isso.

Dos três, Joaquim era o mais sarrista, o tipo mais comum. Gostava de ouvir piadas, ir ao pagode nos finais de semana e pensava que Hermann só balançava aquele copo porque gostava do som que as pedras de gelo faziam. Horácio poderia pensar uma coisa muito melhor elaborada, como por exemplo, um arrependimento insolúvel, dada a inflexibilidade do tempo.
Hermann talvez só balançasse o copo por causa de uma mulher, um envelope na gaveta ou para que o uísque gele logo, mas o fato é que cada um pensava diferente do outro em relação ao outro.

Apesar do suco, do uísque e da cerveja. Apesar do simplismo de um, do romantismo de outro e do ceticismo do terceiro. Apesar de tudo havia ainda uma melancolia estranha que unia os três homens ali presentes e fazia de uma sala minúscula algo especial dentro de um mundo cheio de salas e pessoas.


O amor pela poesia é o mesmo, só o que muda é o poema predileto.

Casa Grande e Senzala

Ele perambulava por toda a fábrica, mas nunca se sabia como é que chegava. Não se sabia porque sua cabeça se inclinava de tal forma que a vista apontava direto ao chão. Conhecia as rachaduras no piso decor. Toda vez que era bipado, colocava o cinto cheio de ferramentas nas quais duas ou três seriam suficientes para todo o trabalho. Não corria. Por maior que fosse o desespero, não corria. Dia desses chegou na máquina, levantou os olhos para o operador e disse:

- O que foi?
- Não sei. Eu tava trabalhando normal aqui e parou do nada. Não funciona porra nenhuma. O Moreira tá puto comigo porque a máquina ficou parada a semana toda. Não dá pra dar um jeito não?
- Eu preciso de um dia. Em um dia eu dou um jeito. Vocês nunca me dão um dia, então que fique quebrando.
- Eu não posso, liga pro Moreira e pede.
- Não vou pedir porra nenhuma, o desgraçado grita até com a mãe.
- Eu vou avisar que a máquina parou então.

Joaquim ficou olhando a máquina. Sabia o que era e precisava de um dia. Voltou ao seu setor e pegou o que era necessário para o trabalho. Quando voltou, topou com o Moreira gritando com o operador:

- Ele não arrumou essa porra ainda?

Ele ficou atrás do Moreira, olhando. O Moreira era um maldito que não entendia nada e por causa disso compensava com rudeza e potência de voz. Mas com o Joaquim ele não gritava, tinha medo do olhar rancoroso do eletricista. Quando o chefe percebeu que Joaquim estava ali, virou gentilmente e perguntou:

- Quanto tempo a máquina vai ficar parada?
- Eu preciso de um dia.
- Um dia? Não tem como dar um jeito? Um dia é muito porra! O seu Alex vai ficar doido. Dá um jeito aí Joaquim. Não dá pra essa máquina ficar parada. Se não der, liga você para o seu Alex e informa.
- Eu vejo se dou um jeito.

Joaquim abaixou a cabeça e seu Moreira saiu resmungando. O operador olhou para ele e disse:

- É Joaquim. A gente precisa de máquina porque senão o cliente reclama.
- Que cliente o caralho! Você é uma porra de um peão, nem sabe o nome do maldito engravatado que encheu o cú do seu chefe de dinheiro. Não fica me falando merda.

O operador ficou resmungando igual ao seu Moreira.
O telefone tocou. era seu Alex. Queria falar com o "rapaz da manutenção".

- Viu, o Moreira me disse que você quer um dia?
- Não precisa mais não seu Alex, eu dei um jeito aqui.
- Ah bom! Eu achei que já ia ter que te internar num manicômio! Já está virando a máquina então?
- Já.
-Ótimo.

Joaquim desligou o telefone, escolheu a chave de fenda que menos usava no seu cinto, cravou a ferramenta no painel da máquina e disse:

- Pode virar agora. Amanhã a gente se vê de novo.

Soneca

Joaquim estava beijando apaixonado aquela por quem tinha amor eterno, mas não sabia. Não sabia porque no meio do beijo um barulho estranho batia-lhe nos ouvidos e ele abria os olhos para ver o que foi. Acontecia pelo menos uma vez por semana, mas Joaquim não se ligava nunca e abria os olhos.
Depois de abertos, seus olhos encontravam o celular vibrando na escrivaninha. Esticava o braço esquerdo buscando o aparelho, alcançava-o e pressionava o botão Soneca. Soneca era uma coisa esplêndida que alguns indíviduos preguiçosos inventaram para lembrá-lo de que ainda havia tempo. Ainda havia tempo e o dispêndio deste ficava à sua disposição. Você poderia voltar a dormir, dar uma trepadinha de dez minutos, ficar se espreguiçando, assistir o noticiário, ler as tirinhas, comer um bombom, dar aquela prazeirosa urinada matinal no inverno ou beijar apaixonado aquela por quem você tem amor eterno. O período destinado à soneca era gasto com o que se queria. Isso tornava aquele tempo ridículo de dez minutos que uma porra de aparelho eletroeletrônico lhe concedia o mais importante do dia.
Mas como desde o princípio (quando ainda era o Verbo e os substantivos nem pensavam em entrar na história) Joaquim era uma besta, seu tempo de soneca era gasto com a tentativa inútil de se lembrar o que acontecera no decorrer da noite. Joaquim não se lembrava nunca e sempre achava que nunca sonhava.

Thursday, January 11, 2007

A epopéia de Joaquim

1ª. parte: A Vida

Joaquim sonhava
Sonhava com o nada
O nada que se resumia sua existência
Não era doce feio vermelho ou simpático
Era nada.

E foi assim no meio do nada
Que Joaquim acordou assustado
Era um berro
um grito
um palavrão?
Vai saber!
Joaquim ouvia mas não entendia.

- Joaquim vem, vem para mim
Vem que eu te dou meus braços meu carinho
Minha sabedoria!
- Vem Joaquim que de nada agora saberás tudo
Sua existência será uma aventura provocante
Sentirás prazer alegria orgasmos amor!
Joaquim que não abrira os olhos até então
Voltou-os para a voz cheia de melodia
e viu.
Viu uma criatura linda
Viu que era branca loira alta de olhos azuis que carregava consigo uma espada
E, logo que vira
sentiu.
Sentiu um perfume envolvente doce febril sedutor
Que o atraiu.

Queria Joaquim tocar a criatura
Que tanto o aprazia.
A criatura sorriu de onde estava
Estendeu os braços para Joaquim e o esperou.

E Joaquim foi.

E ao chegar perto da criatura
uma luz intensa o cegara
um barulho estrondoso o deixara surdo
um cheiro horrível o envolveu
E Joaquim se contorceu se debateu
E se viu tocado por uma coisa seca e rude
que o puxava
que o puxava
e Joaquim se debatia
- Vem Joaquim, vem para mim
mas aquilo tudo
já não lhe aprazia
e se contorcia
- Vem!
e o puxava rude e seca
e o fedor já era insuportável
assim como a luz intensa
e o barulho arrebatador
Joaquim saiu.
Saiu à força.

As mãos que lhe puxavam a cabeça
seguravam agora seu pés
Pá! Foi um belo tapa!
Sentira arder intenso sua pequena bunda
e o grito lancinante saiu.
Joaquim não agüentou.

A criatura horrível
que agora o segurava
disse-lhe gentilmente ao pé do ouvido
- Isso é para largar mão de ser besta
e não confiar em estranhos.

Porque foi besta
Joaquim nasceu
Não em berço de ouro
nem em manjedoura
foi na Maternidade Nossa Senhora do Monte Serrat
numa cidadezinha do interior paulista.
Não foi anunciado por estrelas cadentes
nem por charutos cubanos
mas sim por uma canção contente de seu pai ébrio
e por uma piada de mal gosto dos médicos acerca de sua esperança vindoura.

A criatura maravilhosa segundo dizem
é a Vida.
Mas por que raios ela carregaria uma espada junto de si?