Joaquim, Hermann e Horácio
Estava colocando a roupa suja e coberta de graxa no armário. Trocava sempre suas roupas depois do trabalho. Uma vez acabou esquecendo de levar a troca e foi embora com uma jaqueta, para não mostrar a sujeira da roupa. Tinha orgulho de trabalhar, mas tinha vergonha da sujeira residual. Mas, ao mesmo tempo em que a sujeira o incomodava, o asco pelos escritórios, seus ternos e ares condicionados era ainda maior. Era um bando de gente metida que às vezes tinha um salário tão medíocre ou até pior do que muito peão por aí, mas que acabava nos olhando do alto.
Foi por causa de gente assim que Joaquim saiu do trabalho puto aquele dia. Inventou de andar sorrindo pelos corredores da fábrica cumprimentando todo mundo que via pela frente: "Oba vai!", "Belezinha?", "Tranquilão?". Até que ele inventou de cruzar Flávia, a magnífica, ou "aquela potranca", para alguns que preferiam ser mais diretos. Flávia era secretária de um gerente de alguma coisa, beneficiada desde cedo pela beleza descomunal e pelo bom gosto ao escolher as roupas do trabalho. Pelo pouco contato que tinham não se sabe ao certo se era esperta; inteligente até era, mas a esperteza ficava em um patamar bem diferente. O fato é que Joaquim em seu delírio momentâneo de felicidade achou que poderia cumprimentá-la. O insucesso da empreitada se deu porque ela nem reparara em sua existência. Joaquim um pouco acanhado pela magnificência da dama disse um "olá" fraco e débil, e por ela ser muito forte e concisa não houve resposta. "Vaca" - pensou ele - "aposto que me acha um analfabeto contagioso". A palavra "vaca" saiu-lhe pela boca muitas vezes no decorrer da jornada de oito horas.
Depois de um dia todo puto com aquela bobagem, Joaquim foi ao "muquifo do Hermann", como gostava de falar. Todas as quintas-feiras ele ia ao supermercado, comprava uma caixinha de cerveja puro malte, aquelas mais fortes e requintadas, e se dirigia ao apartamento do amigo. Seriam mesmo amigos? Com certeza sim, dado que aquele estranho relacionamento não aconteceria entre simples estranhos.
Hermann. Joaquim estudou com ele durante algum tempo. Enquanto Joaquim descobria maravilhas comuns da juventude, como as coisas que você se sente incomodado de fazer, mas faz porque todos já haviam feito, Hermann descobria outras. Joaquim contava a Hermann suas coisas e este, por sua vez, confiando demais no julgamento ruim que Joaquim dava, não as fazia. O contrário não acontecia, Hermann não contava muita coisa a Joaquim. Falava de umas músicas, uns filmes, umas garotas. Acabava falando tão bem de tão poucas coisas que Joaquim já se sentia satisfeito e a amizade perdurava.
Até hoje Hermann esmiúça ao falar de suas coisas, mas essas coisas diminuíram muito ultimamente. Joaquim já não tem tantas experiências novas assim para contar; ocorriam umas variações ou outras, mas nada digno de uma interrupção da cerveja.
Por isso a maior parte do tempo no muquifo de Hermann era ocupada por um silêncio inviolável. Os sons mais comuns no ambiente eram os barulhos de satisfação pela temperatura agradável da cerveja puro malte produzidos pela boca de Joaquim e os encontros entre gelos que se davam no copo de uísque de Hermann.
Joaquim ficava sentado torto em uma cadeira dura na sala, de modo que apenas as primeiras vértebras de sua coluna ficassem no encosto. Lia todo o rótulo da primeira cerveja e com as seguintes apenas observava o ambiente. Hermann sentava na única mobília destinada ao conforto em seu apartamento, a poltrona. E lá ficava, com as pernas cruzadas, balançando o copo de uísque e observando fixamente as pedras de gelo se batendo.
Depois da primeira lata de cerveja chegava Horácio com toda a sua esquisitice e seu sorriso simpático. Entrava, cumprimentava com um "boa noite" amigável e se dirigia à cozinha para fazer o suco.
Horácio. Joaquim e Hermann estudaram com ele algum tempo também. Era uma espécie de semi-deus bucólico que foi jogado por engano na cidade grande e por isso sofre. As pessoas o acham estranho, mas Hermann e Joaquim sabiam como era. Não que fossem estranhos os dois, Hermann talvez um pouco, mas ambos gostavam de gente esquisita ao redor.
Nos tempos de escola, Horácio filosofava e recitava poesia; isso acabou os unindo. Quem na verdade gostava muito de conversar com Horácio era Joaquim, Hermann apenas discordava. Quando Joaquim chamou Horácio pela primeira vez ao apartamento de Hermann, o dono do evento ficou tão puto que disse: "Da próxima vez que inventar alguma merda aqui, me avisa.". Desde então, Joaquim só sorria nos encontros. O mau humor de Hermann aliado à simpatia incomum de Horácio eram muito agradáveis para ele.
Talvez Horácio gostasse de provocar. Era o que preferíamos pensar no lugar da possível pureza melancólica que poderia estar invadindo seu coração. Ele levava frutas ao apartamento e fazia um suco, sentava em uma outra cadeira, mas com a coluna retinha e ficava bebendo e sorrindo. Hermann um dia lhe disse que para continuar ali, ele só poderia levar coisas insalubres para beber. Na outra quinta, Horácio levou um pacotinho de suco em pó. Joaquim gargalhava com isso.
Dos três, Joaquim era o mais sarrista, o tipo mais comum. Gostava de ouvir piadas, ir ao pagode nos finais de semana e pensava que Hermann só balançava aquele copo porque gostava do som que as pedras de gelo faziam. Horácio poderia pensar uma coisa muito melhor elaborada, como por exemplo, um arrependimento insolúvel, dada a inflexibilidade do tempo.
Hermann talvez só balançasse o copo por causa de uma mulher, um envelope na gaveta ou para que o uísque gele logo, mas o fato é que cada um pensava diferente do outro em relação ao outro.
Apesar do suco, do uísque e da cerveja. Apesar do simplismo de um, do romantismo de outro e do ceticismo do terceiro. Apesar de tudo havia ainda uma melancolia estranha que unia os três homens ali presentes e fazia de uma sala minúscula algo especial dentro de um mundo cheio de salas e pessoas.
O amor pela poesia é o mesmo, só o que muda é o poema predileto.
Foi por causa de gente assim que Joaquim saiu do trabalho puto aquele dia. Inventou de andar sorrindo pelos corredores da fábrica cumprimentando todo mundo que via pela frente: "Oba vai!", "Belezinha?", "Tranquilão?". Até que ele inventou de cruzar Flávia, a magnífica, ou "aquela potranca", para alguns que preferiam ser mais diretos. Flávia era secretária de um gerente de alguma coisa, beneficiada desde cedo pela beleza descomunal e pelo bom gosto ao escolher as roupas do trabalho. Pelo pouco contato que tinham não se sabe ao certo se era esperta; inteligente até era, mas a esperteza ficava em um patamar bem diferente. O fato é que Joaquim em seu delírio momentâneo de felicidade achou que poderia cumprimentá-la. O insucesso da empreitada se deu porque ela nem reparara em sua existência. Joaquim um pouco acanhado pela magnificência da dama disse um "olá" fraco e débil, e por ela ser muito forte e concisa não houve resposta. "Vaca" - pensou ele - "aposto que me acha um analfabeto contagioso". A palavra "vaca" saiu-lhe pela boca muitas vezes no decorrer da jornada de oito horas.
Depois de um dia todo puto com aquela bobagem, Joaquim foi ao "muquifo do Hermann", como gostava de falar. Todas as quintas-feiras ele ia ao supermercado, comprava uma caixinha de cerveja puro malte, aquelas mais fortes e requintadas, e se dirigia ao apartamento do amigo. Seriam mesmo amigos? Com certeza sim, dado que aquele estranho relacionamento não aconteceria entre simples estranhos.
Hermann. Joaquim estudou com ele durante algum tempo. Enquanto Joaquim descobria maravilhas comuns da juventude, como as coisas que você se sente incomodado de fazer, mas faz porque todos já haviam feito, Hermann descobria outras. Joaquim contava a Hermann suas coisas e este, por sua vez, confiando demais no julgamento ruim que Joaquim dava, não as fazia. O contrário não acontecia, Hermann não contava muita coisa a Joaquim. Falava de umas músicas, uns filmes, umas garotas. Acabava falando tão bem de tão poucas coisas que Joaquim já se sentia satisfeito e a amizade perdurava.
Até hoje Hermann esmiúça ao falar de suas coisas, mas essas coisas diminuíram muito ultimamente. Joaquim já não tem tantas experiências novas assim para contar; ocorriam umas variações ou outras, mas nada digno de uma interrupção da cerveja.
Por isso a maior parte do tempo no muquifo de Hermann era ocupada por um silêncio inviolável. Os sons mais comuns no ambiente eram os barulhos de satisfação pela temperatura agradável da cerveja puro malte produzidos pela boca de Joaquim e os encontros entre gelos que se davam no copo de uísque de Hermann.
Joaquim ficava sentado torto em uma cadeira dura na sala, de modo que apenas as primeiras vértebras de sua coluna ficassem no encosto. Lia todo o rótulo da primeira cerveja e com as seguintes apenas observava o ambiente. Hermann sentava na única mobília destinada ao conforto em seu apartamento, a poltrona. E lá ficava, com as pernas cruzadas, balançando o copo de uísque e observando fixamente as pedras de gelo se batendo.
Depois da primeira lata de cerveja chegava Horácio com toda a sua esquisitice e seu sorriso simpático. Entrava, cumprimentava com um "boa noite" amigável e se dirigia à cozinha para fazer o suco.
Horácio. Joaquim e Hermann estudaram com ele algum tempo também. Era uma espécie de semi-deus bucólico que foi jogado por engano na cidade grande e por isso sofre. As pessoas o acham estranho, mas Hermann e Joaquim sabiam como era. Não que fossem estranhos os dois, Hermann talvez um pouco, mas ambos gostavam de gente esquisita ao redor.
Nos tempos de escola, Horácio filosofava e recitava poesia; isso acabou os unindo. Quem na verdade gostava muito de conversar com Horácio era Joaquim, Hermann apenas discordava. Quando Joaquim chamou Horácio pela primeira vez ao apartamento de Hermann, o dono do evento ficou tão puto que disse: "Da próxima vez que inventar alguma merda aqui, me avisa.". Desde então, Joaquim só sorria nos encontros. O mau humor de Hermann aliado à simpatia incomum de Horácio eram muito agradáveis para ele.
Talvez Horácio gostasse de provocar. Era o que preferíamos pensar no lugar da possível pureza melancólica que poderia estar invadindo seu coração. Ele levava frutas ao apartamento e fazia um suco, sentava em uma outra cadeira, mas com a coluna retinha e ficava bebendo e sorrindo. Hermann um dia lhe disse que para continuar ali, ele só poderia levar coisas insalubres para beber. Na outra quinta, Horácio levou um pacotinho de suco em pó. Joaquim gargalhava com isso.
Dos três, Joaquim era o mais sarrista, o tipo mais comum. Gostava de ouvir piadas, ir ao pagode nos finais de semana e pensava que Hermann só balançava aquele copo porque gostava do som que as pedras de gelo faziam. Horácio poderia pensar uma coisa muito melhor elaborada, como por exemplo, um arrependimento insolúvel, dada a inflexibilidade do tempo.
Hermann talvez só balançasse o copo por causa de uma mulher, um envelope na gaveta ou para que o uísque gele logo, mas o fato é que cada um pensava diferente do outro em relação ao outro.
Apesar do suco, do uísque e da cerveja. Apesar do simplismo de um, do romantismo de outro e do ceticismo do terceiro. Apesar de tudo havia ainda uma melancolia estranha que unia os três homens ali presentes e fazia de uma sala minúscula algo especial dentro de um mundo cheio de salas e pessoas.
O amor pela poesia é o mesmo, só o que muda é o poema predileto.

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